Patrimônio e Memória, em seu volume 3, número 2, traz para o leitor reflexões sobre assuntos que envolvem intelectuais, temas e eventos dos séculos XVIII ao XX. Os registros desses assuntos aparecem na imprensa de caráter oficial e nos impressos de cunho privado e, também, nos impressos diários, os jornais, que circulam e ocupam a esfera pública do Brasil independente, nos séculos XIX e XX. Esses escritos/meios de comunicação, são valorizados pelos pesquisadores ora enquanto impressos, ora em seu papel de mediadores e articuladores de dimensões política e da cultura, ora como instrumentos na busca de consagração de certa memória que se quer vitoriosa.
O número, em tela, estrutura-se a partir de dois “dossiês” e das seções de “Comunicação de Pesquisa” e “Resenhas”.
O primeiro dossiê aborda questões que envolvem um longo período da História do Brasil. Esses escritos discutem os textos de autores e literatos que se utilizaram do latin para pensar suas experiências em terras de além-mar, nos idos do século XVIII; de políticos e letrados que pensaram a conformação do país em seu processo de constituição ao longo do século XIX, a partir do Parlamento e da Imprensa que emerge desse processo; e, ainda, apresentam o olhar estrangeiro, nada complacente, sobre essa trajetória de Nação expressa na figura de seu mandatário principal, o Imperador D. Pedro II.
O dossiê seguinte, traz para o leitor questões relativas às dimensões da memória, em eventos que buscam consagrar a memória do acontecido imediato, visando projetar para o futuro os anseios, valores e confrontos das elites paulistas que pegaram em armas em sua defesa. No outro pólo, o leitor também terá acesso às demandas vitoriosas de lideranças negras que, a partir de suas experiências de exclusão, travam embates para inscrever, no presente, o passado do grupo, que se quer obliterado. E, ainda, em nome da tradição, é possível acompanhar as disputas expressas na demarcação de lugares de pertencimento, definidos na divisão espacial da cidade de Mariana e, em conseqüência, as pretensões de circunscrever quem pode ou não ter acesso aos bens culturais, constitutivos desses legados.
Essas discussões são ampliadas nas seções “Comunicações de Pesquisa” e “Resenhas”, uma vez que os autores abordam a mesma temática. Deixam claro em seus textos que tanto a elaboração e cuidados na demarcação da memória de si, quanto as disputas de lugares, no âmbito de segmentos sociais distintos, não são operações simples, porque as disputas se inscrevem em universos plurais que estão perpassados de valores, muitas vezes antagônicos.
O arremate das discussões, apresentadas nesse número, materializa-se na capa dessa edição de Patrimônio e Memória — que encerra o ano de 2007 e, também, minha participação como editora desse periódico que ajudei a construir desde o seu primeiro esboço.
A escolha da imagem de duas jovens aristocratas, do século XIX, publicada no Jornal das Famílias, do ano de 1864, sinaliza em direção à busca de diálogo, com os assuntos expostos ao longo do periódico, que se inscrevem em dois tempos, distintos e polares: o passado sempre projetado para o presente, e o presente, que busca, ao mesmo tempo, demarcar as percepções, os valores e sensibilidades que se perderam no tempo, e também as novas elaborações que se ergueram sob suas ruínas.
Assis, 26 de novembro de 2007
Profª Drª Zélia Lopes da Silva - Editora
e-mail: patrimonio-e-memoria@assis.unesp.br

