PAULO FREIRE, O ANDARILHO DO ÓBVIO

 

Edson Passetti

 


"Eu não faço nada por obrigação:

o que os outros fazem por obrigação

eu faço por um impulso de vida."

 

Walt Whitman

 

 

 

"A pedagogia que me toca é a pedagogia que escuta, provoca e vive a difícil

experiência da liberdade, reconhcendo que há uma distorção, o autoritarismo.

Minha opção é por uma pedagogia livre para a liberdade, brigando contra a

concepção autoritária de Estado, de sociedade."

 

Paulo Freire

 

 

O final do século XX surpreendeu os mais eloqüentes profetas mostrando que os homens não estão destinados à iluminação de elites ou vanguardas que se pensam criadoras de uma consciência garantidora da sua perpetuação no Estado.

 

Vivemos um século demarcado por uma falsa oposição entre socialismo e capitalismo, como se a historia tivesse registrado essas duas únicas alternativas. Sob este signo edificou-se um dos mais sangrentos e destruidores momentos da humanidade, apesar de todos os desenvolvimentos tecnológicos. Foi um século de guerras planetárias, regionais e locais, marcadas pela reprodução desta dicotomia numa rocambolesca guerra fria.

 

Nem o capitalismo conseguiu atingir, com sua política keynesiana do pleno emprego, soluções para misérias, nem tampouco o socialismo autoritário atingiu com a estatização dos meios de produção a superação da pobreza, o alto grau de desenvolvimento das forças produtivas e a extinção do Estado.

 

Guerras, explosões demográficas, racismos, fanatismos religiosos, preconceitos, fome e sofisticações tecnológicas encurtaram distâncias e aumentaram lucros convivendo com Estados cada vez mais ampliados, gerenciando as vidas e emitindo dados estatísticos sobre indivíduos fragmentados pelos bancos de dados.

 

A democracia representativa transformou-se, com a instauração do controle cibernético, num espetáculo eleitoral e o socialismo autoritário instituiu o mais prolongado, ainda que breve, domínio burocratico-militar. Nem o internacionalismo liberal e muito menos o dos socialistas marxistas ultrapassou os limites dos nacionalismos guerreiros circunstancialmente pacificados por novos tratados. Tanto o capitalismo como o socialismo autoritário viveram o processo continuo de intervenções estatais que levou à atual crise onde as dicotomias falharam e os conservadores parecem querer mandar sossegadamente.

 

Proudhon já demonstrara no século XIX que os homens preferem os regimes de mais liberdade aos fundados na autoridade, e Bakunin reiterara esta tese insistentemente a Marx e Engels mostrando que a ditadura do partido comunista não se diferenciaria de qualquer outra ditadura. William Godwin insistira no final do século XVIII sobre os efeitos disciplinares e a reprodução da propriedade privada como elementos indissociáveis do Estado, gerando miserabilidades fundamentadas em idéias norteadoras de uma prática violenta. Para eles o Estado liberal já era o Estado acabado e contra ele investiram suas analises criticas. Étiénne De La Boétie, no século XVI, deixara claro que a sociedade não se deslocava do mundo da liberdade para o da autoridade quando afirmava que a servidão voluntária não podia ser demarcada em um determinado acontecimento original.

 

 

 Esses pensadores, verdadeiramente libertários, diziam-nos que o homem é um ser pacifico por natureza e que nunca haveria um mundo de liberdade absoluta, mesmo porque a única autoridade inquestionável, a dos pais em relação aos filhos, não tem como ser suprimida, pois é através dela que se realiza a inserção amistosa da criança no mundo, introduzindo a linguagem acompanhada de regras de trocas.

 

 

 A educação é o tema fundante do pensamento libertário enquanto processo de formação de um indivíduo no presente. Não se espera pelo futuro, nem se rejubila com o passado. Ela envolve tanto as afetividades como o discernimento das regras de autoridade vigentes exigindo, quando voltada para a potencialização da liberdade, a existência efêmera da autoridade paterna que cessa a partir do discernimento do sujeito em torno de sua desterritorialização. É a educação ultrapassando as territorialidades da autoridade; é a educação crítica à artificialidade da pacificação da violência pelo Estado, propagada modernamente desde os contratualistas.

 

 

 Nela não ha lugar para pensarmos o homem como egoísta ou altruísta, pois por ambas as partes ele se torna um agente ou um servo da caridade. A providência divina, ao ser substituída pela providência da razão, como no intervencionismo-cujo objetivo é estatizar todos os meios de produção e que apareceu, neste século, sob diversas formas de Estado como welfarestate, fascismo, nazismo, social-democracia ou socialismo-, não superou mas reafirmou religiões, nacionalismos, misérias, corrupções e pretendeu transformar a educação, confundida com instrução, em propriedade estatal.

 

 

 O final do século XX apresenta-se possível para retomarmos a luta contra o Um, um senhor para o qual voluntariamente servimos (chame-se pai, chefe, Iíder, patrão ou Estado), através de um processo educativo fundado no dialogo que ensina a conviver com a necessidade de se dizer SIM, evitando-se os sangrentos conflitos sempre iminentes.

 

 

 Paulo Freire foi um educador que se aproximou muito da concepção de Godwin sobre a educação. Ele não acreditava em revoluções radicais e sangrentas como Bakunin. Concordava, ao seu modo, com a afirmação de Proudhon que a propriedade é um roubo. Deixava-se perpassar pelas inquietações de um adolescente como La Boétie mesmo aos setenta e alguns anos. Foi, em suma, um educador desejoso por conversas que prezassem a liberdade como o valor mais precioso.

 

 

 Ele foi um dos mais expressivos intelectuais latino-americanos, não só pela importância suscitada pelo método dialético, mas principalmente pelo papel de educador como instigador político que o levou aos mais distantes pontos do planeta, engajando-se em diversas lutas e reafirmando sua vocação humanista.

 

 

 No âmbito dos que pensam a educação para um mundo livre de desigualdades, ele expressa a idéia que a fronteira é uma linha imaginaria que nos convida a ser ultrapassada e que, ao fazê-lo, suprimimos as distinções que nos levam a uma convivência pacífica e mais igualitária.

 

 

 Paulo não foi um anarquista no sentido amplo das ações, mas criou com sua obra um legado libertário que deve ser lido, estudado e experimentado por um anarquista livre de preconceitos e sabedor dos impactos históricos de cada época sobre os indivíduos.

 

 

 No Brasil o anarquismo foi, no início do século, o mais importante movimento de ação e contestação em torno da desigualdade. Os anarquistas, italianos principalmente, chegaram a São Paulo onde uma incipiente indústria buscava se firmar a partir de uma economia agrario-exportadora de herança oligárquica e escravagista. Foram eles que trouxeram uma novidade histórica para o país em que a emergência

jurídica do trabalhador Iivre ocorrera somente no final do século XIX. Mostraram que o possível depende das pessoas audazes e não de negociações políticas.

 

 

 O efeito da novidade anarquista foi a conquista de direitos elementares pelos trabalhadores, cujo preço foi a repressão com exílios e deportações, simultaneamente a uma estratégia de controle estatizante de inspiração fascista, levada a cabo pela ditadura de Getulio Vargas nos anos 30 e 40.

 

 

 Paulo nasceu em Pernambuco, no nordeste brasileiro, uma região predominantemente agrária, governada com paternalismo pelos proprietários dos engenhos de açúcar. Sua população, na grande maioria, era composta por trabalhadores analfabetos submetidos a uma secular relação de compadrio com os proprietários de terra e à influência do poder católico tradicional.

 

 

 Paulo descobriu, desde a infância, que antes de ações políticas supostamente conscientes, como pretendiam os comunistas desde a fundação do Partido Comunista Brasileiro na década de 1920, as coisas mudam a partir de um outro principio, aquele que diz respeito ao ver e viver o mundo desde a infância: uma forma de ser educado que depende, antes de tudo, de afetividade para se conviver e superar a vida como ela se apresenta.

 

 

 O brasileiro é um povo alegre, como Freire, não só durante o carnaval. O brasileiro é um indivíduo profundamente religioso, não só nos feriados cristãos, que não são poucos. É um povo que acredita nos políticos patriarcais, apesar de se dizer descrente. E uma mistura de índios que sobreviveram à descoberta, à expropriação de suas terras, mulheres e linguagens; de negros que para cá foram trazidos como escravos para substituir a mão-de-obra indígena, inicialmente, na plantação de cana-de-açúcar; dos imigrantes de diversas procedências que aqui chegaram como trabalhadores livres, através de acordos estatais, para substituírem os negros após a libertação dos escravos no final do século XIX.

 

 

 O brasileiro é uma mistura de raças, culturas e misticismos religiosos em festas profanas. O brasileiro não é tão bonito como se espera, porque não há como apolinizar a pobreza. Ele vive num país de estrangeiros e é um pouco estrangeiro na América Latina de herança espanhola: sob a máscara há outra máscara, a máscara do rosto.

 

 

 A beleza do brasileiro vem do rosto sem máscara que chora e ri simultaneamente, que reza a Deus, faz oferenda a deuses africanos, medita com os orientais, lota as assembléias de crentes e pragueja contra Deus; é uma máscara inconstante de indecisões, sinalizando que tudo é possível entre o sagrado e o dionisíaco. O brasileiro ainda é um povo que se vê tutelado pelo grande pai, o Estado. Foi por isso que nos anos 60 Paulo Freire, acreditando numa possível reversão do populismo graças às ações contestadoras na cidade e no campo, aderiu ao governo Goulart que substituía o de Jânio Quadros renunciante, para implementar a campanha de combate ao analfabetismo a partir da realidade do próprio trabalhador.

 

 

 Paulo Freire procurou redimensionar o tradicional catolicismo brasileiro. Influenciado pela ousadia de um bispo conterrâneo, Dom Helder Câmara, contribuiu, indiretamente, para a estruturação da Teologia da Libertação, uma reforma do pensamento catóico de grande importância para América Latina dos anos 70/80, e ainda pouco avaliada, questionando, a seu modo, a vida dos homens divididos.

 

 

 Paulo Freire exilou-se durante o período ditatorial militar iniciado em 1964, graças à perspicácia de sua mulher Elza, enfrentando o ressoante romantismo que o movia a permanecer em território brasileiro, como mais um provável herói dizimado pela ira militar. Sua mulher teve uma ação decisiva não só pelo sentido de preservação da vida de quem amava, mas principalmente por ter a certeza de que as idéias do marido poderiam contribuir para outros movimentos de busca pela liberdade em qualquer lugar do planeta. Ela o levou pelas mãos ao exílio, num outro centro onde, posteriormente, a repressão se instalou de maneira ainda mais sangüinári a que no Brasil. Passou a morar no Chile, país também de tradição católica marcante, como toda a América Latina. Mas o deslocamento para lá foi também a possibilidade de conhecer os Estados Unidos conturbados pelo questionamento da juventude, morar em Genebra para presenciar o descontentamento da Europa com sua história anciã e atingir a África e a Índia de múltiplas invasões brancas. Enfim, Paulo Freire começou a acontecer como pensador influente no final dos anos 6O, quando o planeta, através das diversas contestações vindas dos jovens, quis gritar um basta a qualquer forma de autoritarismo, fosse ele capitalista ou socialista. E é claro, neste movimento, novamente as ações e os ideais libertários, e os anarquistas em especial, ressurgiram para gestar novas lutas e expectativas.

 

 

 Paulo Freire se afirmou cada vez mais como um democrata que, levando o cristianismo a extremos, nos revela os limites da própria democracia e do próprio cristianismo. Isto faz de Freire um pensador fundamental para se escapar dos comodismos democráticos de conservadores e social-democratas de plantão.

 

 

 No início dos anos 70 um compositor popular nordestino, exilado em Londres, escrevia uma carta sob a forma de poema musicado a sua irmã, uma famosa cantora popular, recomendando que ela aprendesse inglês e muito "I love you". De certa maneira indicava o processo de globalização da cultura e que saber inglês não era adesão mas uma forma a mais para resistir. Dizia aos brasileiros, através dela, que deveríamos saber sobre todos os povos porque os povos colonizadores não sabiam, como não sabem até hoje, onde nós estamos. Falava da necessidade de ser cosmopolita sem perder nossas referências fundantes, da quebra das fronteiras sem subordinação, da possibilidade de uma federalização do planeta.

 

 

 O tempo passou rapidamente como quer o processo de globalização, mas trouxe também novos sinais ainda pouco decodificados pelas redes de comunicação e pelo mundo cibernético do controle, que não é unilateral como se diz por ai e como bem o sabia Paulo Freire. O que passa a ser irreversível é aprender a lidar com o desenvolvimento das forças produtivas desconsiderando seu alegado maquiavelismo. Se a única certeza da finitude é a morte, não há porque sonhar com fantasmas do passado ou aparições futuristas. Existe sim o que passou, muitas vezes porque tinha de passar e por isso não se pode pensar a globalização apenas como espetáculo alienante localizado no adro.

 

 

 O adeus à centralidade pode ser possível. Sabemos que a proposta liberalizante dos conservadores ainda não ultrapassou o nível da critica ao intervencionismo e que a democracia nunca foi preferencial no pensamento filosófico moderno, nem é um valor universal: ela é apenas o medo dos conservadores e o refúgio dos social-democratas. Para ambos somos massa, indivíduos sem vontade e independência.

 

 

 A educação libertaria é, e sempre foi, a afirmação de princípios de sociabilidades negadoras de elites e vanguardas, princípio filosófico de dissolução do individualismo, da massa e da propriedade privada dos meios de produção. Mesmo querendo encontrar no Estado uma possibilidade como meio para afirmar uma nova sociabilidade, Paulo Freire nos leva a ultrapassar esse limite chamando-nos para o dia-a-dia frente às emotividades infantis e a vida na escola. Lembra, a seu modo, que o anarquismo não é uma proposta alternativa conivente com a estrutura centralizadora de poder, mas como dizia o compositor à sua irmã e a todos nós através do poema-carta, já sabemos que devemos aprender falar inglês, decodificar o que se quer de nós e que o muito que queremos é muito pouco.

 

 

 A democracia, para Paulo Freire, não é apenas uma cristalização da representação sob a forma de terapias sociais, o outro lado do fracasso intervencionista na economia proposto pelos social-democratas. Sua visão e prática educativas democráticas supõem o exercício da democracia direta mais detalhada na estrutura escolar do ensino formal, antes de tudo como meio obstruidor do autoritarismo do que defensor de cristalizações democrático-representativas: ele desejava relações horizontais a partir da organização sob a forma de conselhos.

 

 

 Mesmo não tendo sido adepto do fim da escola, como Ivan Illich, a quem respeitava pela radicalidade, o pedagogo Paulo Freire não se escusou em aceitar escolas autogestionárias com programas totalmente contrários aos preconizados pelo monopólio da educação estatal que ele ainda considerava necessária em países miseráveis, quando sob a direção pluralista de trabalhadores. Freire não se posicionou como um afirmador inconteste de sua pedagogia, mas a viu como um meio possível, convivendo e dialogando com outras pedagogias entendidas por ele como democráticas, um sinônimo muitas vezes de prática libertária.

 

 

 O respeito que obteve no Brasil, em especial, onde a intelectualidade vem de uma formação híbrida de comunismo e catolicismo é ainda um respeito de bocas-tortas. Sua maior influência se encontra junto às populações mais pobres da zona rural, das periferias das grandes cidades e em parte da intelectualidade católica inspirada na Teologia da Libertação. Como um homem de mínimas vaidades, isso nunca afetou Paulo Freire.

 

 

 Ao assumir a Secretaria da Educação da cidade de São Paulo por dois anos, na virada da década de 9O, na surpreendente vitória de uma candidata à prefeitura da cidade, contou mais com a simplicidade da prefeita do que com o apoio dos intelectuais e do próprio partido. Isso não o abalou. Procurou introduzir uma descentralização administrativa e uma liberdade de ação a professores, estudantes, funcionários e pais de alunos sobressaltando a direção do Partido dos Trabalhadores que ajudou a fundar.

 

 

 Paulo Freire continuou sendo professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e um homem ágil, muitas vezes lírico, andando por qualquer parte do planeta para dialogar com pessoas interessadas em liberdade. Foi como um andarilho do óbvio que percorreu diversos espaços defendendo o princípio da educação livre desde a infância, sem sonegar da criança as possibilidades da vida longe das desigualdades. Foi um antiprofeta e um não-dogmático; não foi um idealista.

 

 

 Ele foi avesso à idealização dos pensadores própria dos dogmáticos e dos religiosos em geral, seja como sacerdotes da ciência ou como idolatras. Mais do que regozijarem-se como guardiães de escrituras, os idealistas são sempre pessoas que temem arranhar a aura de seus mestres, porque mantendo-as como estão, mantêm também seu poder de apostolo do divino ou da razão. Eles querem sempre posturas exemplares; são os escolares para quem apenas o que sabem e dizem é verdadeiro, uma verdade absoluta e insípida. Eles querem pacificar não as relações sociais, mas antes de tudo, a forma possível da sua instalação no Estado suprimindo verdades insuportáveis. Os que idolatram pensadores, credos ou doutrinas cientificas nada mais são, frente aos dilemas históricos, que apóstolos, papel que Paulo Freire se recusou a desempenhar e que nunca esperou daqueles que se aproximam de suas idéias.

 

 

 De que vale pensar um planeta igualitário a partir de um único ponto de vista? Os comunistas, com toda a sua poderosa verdade fundada na filosofia da transformação de Karl Marx, a perfeita tradução da pacificação artificial da violência levada a cabo por Hegel, pensavam ser capazes, enquanto vanguarda, de interpretar o inconsciente que portava as mais diversas forças sociais. Não tardou para que descobríssemos que a vanguarda hoje no poder se transforma em grupelho amanhã e, depois de amanhã, encontra no ditador a sua perfeita encarnação. Stalin, Mao e Fidel não são efeitos ou desvios, mas os correlatos de papas e ditadores como Hitler, Khomeini, Hussein, Vargas, Somoza ou qualquer outro, que por qualquer efeito se transveste de senhor do Estado.

 

 

 Mas do que vale pensar num planeta igualitário a partir de diversos pontos de vista? Os democratas juramentados acreditam na inevitabilidade do Estado como solução de conflitos. Os intervencionistas social-democratas acreditam no maior ou menor bem-estar social, à custa da estatização gradativa dos meios de produção ou das continuas políticas sociais com funções terapêuticas. Outros acreditam que a solução é possível com total privatização, restaurando, no âmbito histórico, o que o liberalismo sempre propôs no plano teórico,-a inevitabilidade de Estado como monopólio da força física-, deixando o restante para a própria sociedade dos instintos pacificados por ele. Se os comunistas queriam a vida estatizada, os social-democratas querem-na controlada e os liberais pacificada na continuidade da propriedade privada dos meios de produção. Restam ainda os conservadores, disfarçados de liberais e democratas afirmando-se como a única verdade possível no final do século capaz de res taurar a paz desviada pelo estatismo sob qualquer regime, querendo nos dizer que não são

patrioteiros e tentando nos fazer acreditar que não devemos nos preocupar com as novas conformações como a Comunidade Européia ou o Mercosul porque são supressões dos Estados nacionais. Não permitem que se toque na questão se estas novas comunidades se conformarem em novos Estados corporativos. No fundo, para eles, a democracia é desnecessária ante a iminente ação técnica que deve ser posta à prova por uma elite clarividente cuja tarefa deve ser concluída sem ruídos ou questionamentos. Assemelham-se aos comunistas justamente por se colocarem como o oposto, não querendo que percebamos ser este o outro lado da moeda. Os liberais, assustados em seus gabinetes refrigerados, reiteram o poder de crítica de seu pensamento, mas parecem exigir que a histeria finalmente os aceite. São também o outro lado dos comunistas. Enquanto estes últimos refugiam-se na idéia de que o que se passou neste século XX foi o "socialismo real" e não o socialismo propriamente dito, um estertor de política, os liberais também esperam pelo exato momento em que todos corram em busca do "liberalismo real". Enquanto isso, tudo parece confluir para a continuidade conservadora com os terapeutas de plantão tentando obstruir possibilidades libertárias de configuração.

 

 

 Não há como deixar de interrogar o significado da pacificação artificial da violência pelo Estado que se encontra num campo propicio do pensar libertário que se chama educação, uma educação que se funda em sociabilidade libertária voltada para os fluxos desejantes e capaz de nos levar a praticas sociais de resistências e contrapoderes. Enfim, as perguntas a serem feitas não se resumem ao ponto de vista.

 

 

 Desde William Godwin sabe-se que a intransigência leva o populacho a ações sanguinolentas sem qualquer finalidade objetiva. Não há por que assumir o ar desolador de herdeiros da razão iluminista frente à proliferação de neonazistas, skinheads, narcotraficantes, terroristas religiosos, serial killers, que matam sozinhos ou em grupos sem saber bem por que ou por uma boa reportagem, como forma para   suportar sua condenação ao anonimato. Como se diz, a coisa se encontra noutro lugar; então, está fora das saídas democráticas, conservadoras ou comunistas. Exigem que o anarquismo saiba responder a elas, com tenacidade e velocidade, considerando sua história mas sabendo atualizar seus princípios. Todos precisam saber que os

princípios da análise crítica permanecem sólidos para se interpretar e viver os tempos de agora e o principal deles continua sendo o principio educativo. Devemos saber ser radicais, atualizando as radicalidades no presente a partir de análises criticas que, ao seguirem os princípios libertários, não se transformem em reiterações do passado.

 

 

 Freire gostava de futebol como todo brasileiro , de andar pela rua com seus netos, de apreciar as pessoas bonitas, de sorrir até chegar a uma gargalhada, de atender, carinhosamente, à passagem de sua mulher, interrompendo a conversação. Não bebia mais a tradicional pinga, mas defendia com intransigência a liberdade do indivíduo de usar os estimulantes que desejar como responsabilidade pessoal intransferível. À maneira de Baudelaire, acreditava que ninguém ficava mais ou menos inteligente usando drogas. Para ele estava claro que a proibição é uma necessidade econômica e militarista. Acreditava no conhecimento racional e na ciência como afirmações de certezas temporárias e históricas, mas resguardava para si sua relação com o sobre-humano, com uma fé que afirmava um caos inicial. Paulo não se atreveu a

formular a pergunta que o jovem Epicuro disparou a seu mestre, deixando-o atônito: "E quem inventou o caos?"

 

 

 Paulo Freire lembrava personagens de Guimarães Rosa: um compadre, um sábio do sertão que vagueia sem destino, um delicado Diadorim, um formoso Riobaldo. Outras vezes parecia sair, simultaneamente, da literatura de Mario Vargas Llosa e Garcia Marques. Podia ser um paciente homem dos romances de Jorge Amado, capaz de entender o significado da autoridade patriarcal redimensionada pela anarquia dos desejos. Era um poeta recifense como Manoel Bandeira ou um embaixador como João Cabral de Mello Neto.

 

 

 Paulo Freire viveu em São Paulo, na Rua Valença, 170, próximo ao espigão da Avenida Paulista, o ponto mais alto da cidade. Tinha comprado recentemente um apartamento numa praia na cidade do Recife, para os dias de descanso. Foi um homem que enfrentou diversas surpresas desagradáveis propiciadas pelo seu corpo, mas que bravamente quase as superou. Isso deu ao seu rosto emoldurado por uma grisalha barba e óculos um disfarce de dores num misto de sorrisos e atenções; deu às suas mãos a delicadeza do toque que quer proximidade. Sentado na poltrona, com a perna direita cruzada sobre a esquerda compunha com as mãos sempre alçadas ao ar uma fala característica do jeito brasileiro de conversar. Ele assumiu a conversação como um parceiro que queria saber de nós, do que pensávamos sobre os acontecimentos recentes, do que pesquisávamos, enfim, do que podíamos aproveitar juntos durante cada uma das treze sessões de duas horas que realizamos entre 1994 e 1995. Ao final, cansado, mas pronto para continuar noutro momento, nos despedíamos cordialmente, mesmo quando ultrapassávamos limites, propósito que desde o início ficou acertado entre nos. Ao concluirmos as sessões previstas, nos perguntou quando voltaríamos para revermos as transcrições e cortes para a edição ao leitor italiano. Voltamos para as sessões de leitura dos originais. Não saberia dizer se cortamos algo que ele não desejasse, mas ele ouviu a versão final procurando contribuir para clarear algumas passagens e emocionou-se conosco ao final da leitura. Aprendemos muito, nós e ele, nessas conversas, através da brincadeira dialética que parametrou as conversações.

 

 

 No período compreendido entre o final dos anos 60 até sua morte, Paulo Freire construiu uma obra antiautoritária, em muitos pontos libertária, aproximando-se, por diversas vezes, do anarquismo cristão dos escritores Ernesto Sabato e Leon Tolstoi.

 

 

 Paulo casou com Elza, teve filhos, netos, ficou viuvo e casou com Nita. Passou a vida como um andarilho do óbvio, um libertário pela estrela azulada que navega no Nada.

 

 

 Paulo Freire morreu no final de abril de 1997. Ele desejava ter visto nossa conversação libertária editada em português; e ela aqui está. Mantive a introdução ao livro praticamente inalterada a não ser pela tristeza de passar, algumas vezes, o tempo verbal do presente para o passado.

 

 

Edson Passetti

 

PASSETTI, Edson "Conversação Libertária com Paulo Freire", Imaginário, São Paulo, 1998

 


C a n t o   L i b e r t á r i o