ANARQUISMO – UMA IDEOLOGIA 
OU UMA METODOLOGIA

 

Dave Neal

 


"É uma característica estranha da tradição anarquista ao longo dos anos que parece frequentemente criar personalidades bastante autoritárias, que legislam o que a Doutrina É, e que com vários graus de fúria (por vezes imensas) denunciam aqueles que diferem do que eles declararam ser os Grandes Princípios. Estranha forma de Anarquismo" --Noam Chomsky

 

Um problema que permanece por ser resolvido com o movimento anarquista interfere com a própria natureza dos Anarquistas. Se procurastes por estas páginas, provavelmente saberás que o cisma mais conhecido entre Anarquistas é o conflito "Anarquismo Social VS Modo de Vida Anárquico", com os apoiantes destes defendendo que a luta de classes é inútil, infrutífera e irrelevante e com os primeiros declarando que, estes não são realmente Anarquistas, mas sim burgueses exibicionistas.


Para o cibernauta casual poderá parecer um debate inútil, até mesmo ridículo. E em muitos pontos poderás até ter razão!! O debate "Anarquismo Social VS Modo de Vida Anárquico" desenvolve-se em torno da ideia do que afinal significa ser Anarquista.

No entanto, subjacente a este debate está um assunto menos óbvio, nomeadamente se o Anarquismo é uma ideologia -- um conjunto de regras e convenções a que teremos que nos restringir, ou se o Anarquismo é uma metedologia -- uma maneira de actuar ou uma tendência histórica contra a autoridade ilegítima. Acredito que a este debate está latente o dilema "Social VS Modo de Vida" e tentarei apoiar-me nele.

Chamarei aos Anarquistas ideólogos, ANARQUISTAS, em letras maiúsculas, e aos Anarquistas metodologista, anarquistas, em letras minúsculas, para distinguirem de quem estou a falar. Até chegarmos a conclusão, um Anarquista pode ser qualquer um deles.

O Anarquismo claramente tem um certo conceito. Por exemplo no nosso dicionário significa:

1-A teoria de que todas as formas de governo são opressivas e indesejáveis, e devem ser abolidas;
2-Resistência activa e terrorismo contra o Estado, como usado por alguns Anarquistas; 3-Rejeição de todas as formas de controlo coercivas e a autoridade.

Assim, segundo esta definição, um Anarquista é aquele que considera todas as formas de governo opressivas e indesejáveis e rejeita todas as formas de controlo coercivo e autoridade. Alguém que não obedeça a este critério não é um Anarquista.


Isto apoia a ideia de que a Anarquia é uma ideologia -- um conjunto consistente de ideias baseados em princípios base. Mas quererá dizer que toda aquele que disser que é Anarquista É, de facto, Anarquista?

Claro que não, o que forma o elemento principal do argumento para o Modo de Vida "Anárquico", bem como a oposição Anarquista contra a afronta intelectual que é o "Anarco"-Capitalismo.
Mas há uma diferença entre a objecção ideologista e a oposição metedologista. Para o ANARQUISTA ele diz: "X não é Anarquista", com a implicação de que ele sabe do que trata o Anarquismo. Para eles, não há necessidade de demonstrá-lo ou prová-lo -- o facto de ELES o dizerem é suficiente.

Para o anarquista, o Modo de Vida "Anárquico" e o "Anarco"-Capitalismo são rejeitados, porque, metodologicamente, não são as maneiras de alcançar o Anarquismo. Eles usam os meios errados para obter o mesmo fim -- nomeadamente a felicidade humana.

Vêem as diferenças nas aproximações?

Método versus Loucura

O ANARQUISTA sublinha que a conformidade ideológica é o pré-requesito para a revolução social -- por outras palavras, engoles as doutrinas A, B e C e consequentemente és um ANARQUISTA. O seu plano de acção envolve: 1) criar uma organização ANARQUISTA Central; 2) educar (i.e. endoutrinar) a classe operária para com os dogmas do Anarquismo; 3) construindo assim um movimento de massas; 4) criar uma revolução social.

O ANARQUISTA sente-se confortável com a ideia de um manifesto, uma plataforma base, ou outra doutrina base como o meio de espalhar a "Boa Nova" - a sua ênfase é união na acção e no pensamento, e a conformidade ideológica como elemento principal de uma organização eficaz.


O anarquista, contudo, rejeita tudo isto. Ele sustenta, ao invés, que: 1) as organizações anarquistas não podem ser criadas se não forem exigidas; 2) pessoas endoutrinadas não são pessoas livres; 3) um movimento baseado numa autoridade central (p.ex. como a organização ANARQUISTA central) e nas massas de seguidores "educados" por essa organização, irá ser um movimento elitista e político e não um movimento popular e social; 4) A revolução social será invariavelmente traída por tal esforço, e tornar-se-à numa revolução política logo assim que os ANARQUISTA chegarem ao poder.

Isto não é uma diferença semântica; pelo contrário, ataca precisamente o núcleo do próprio movimento, e as origens deste debate remontam precisamente à fundação da I Internacional.


Quem está certo? Eu defendo que a metedologia do Anarquismo é mais importante e vital que a sua ideologia. Isso é porque eu reconheço que a linguagem, particularmente ao serviço dos ambiciosos, é sistematicamente adaptada para servir as elites de poder.

Um grupo poderia apelidar-se de ANARQUISTAS, mas isso não faria deles anarquistas pois não? Farias bem se não acreditasses nas suas palavras cegamente, mas sim abordá-los com as tuas próprias intenções.


Os dois modelos de luta da História são o modelo Marxista -- a ideia de uma vanguarda política guiando as massas para a sociedade socialista; e o modelo Bakuninista -- a ideia de rejeição de toda a autoridade política e usando as próprias acções populares como a maneira de realizar o socialismo no "aqui e agora" ao invés de esperar por um futuro incerto onde isso acontecerá.


Até à data, o modelo Marxista tem dominado a esquerda radical durante cerca de um século, apesar de recentemente, com o colapso da URSS, observarmos a atmosfera ideológica desvanecer-se pela primeira vez em décadas. Isto é porquê é que este debate é tão oportuno e tão crítico se queremos que o Anarquismo evolua e cresça.

A minha principal oposição ao Anarquismo ideológico é que depende não na liberdade de expressão e em acções directas, mas sim em obediência, passividade, e conformidade para com um factor exterior: quer seja um manifesto, plataforma base ou outro mecanismo de controlo. Posteriormente concentra-se em criar uma organização central topo-base como o meio de expandir o Anarquismo para o exterior dessa organização.

É lúdrico assumir, todavia, que podemos usar métodos não-livres para atingirmos uma sociedade livre. Semelhantemente, é ridículo tentar criar uma organização popular e libertária antes de termos as massas seguidoras! O que teríamos era uma elite especial de activistas, que, sem surpresa seria semelhante à situação actual da esquerda actual!


Além disso, como a pureza ideológica é o mais importante para os ideólogos, eles acabam por: 1) discutirem eternamente sobre pormenores insignificantes; 2) caçar e castigar os hereges; 3) anular contribuições positivas de outros possíveis companheiros devido a este elitismo.

O Anarquismo não é "qualquer coisa serve" -- ele quer dizer algo. Porém, um operário não tem que ficar "endoutrinado" para ser "apropriado" para o movimento. Noam Chomsky dá uma explicação muito explícita da visão metedológica do Anarquismo quando diz que para ele o Anarquismo é " a tendência histórica dos povos para se rebeliarem contra autoridade ilegítima".


Por exemplo, quando os marinheiros de Kronstadt se revoltaram contra os Bolcheviques em 1921 estavam, sem o saberem, a comprometerem-se com o Anarquismo metedológico -- acção popular contra a autoridade ilegítima -- pois os Bolcheviques tinham traído a revolução ao ficarem no poder, apesar de afirmarem que ele estava com o povo.

Anarquismo, não anarquistas

Os Anarquistas devem-se esforçar por expandir as ideias anarquistas e, mais importante, espalhar os métodos anarquistas de organização, ao invés de tentarem com que as pessoas se tornem ANARQUISTAS. É uma ténue, mas fundamental distinção.


Os Anarquistas defendem que a própria luta social -- a propaganda activa -- radicaliza e envolve politicamente as massas. Quando tiverem a sensação do seu próprio poder, atingido por acção colectiva e directa, o que se obtém são pessoas "anarquizadas" -- pessoal que entende as ideias anarquistas na prática, em vez de estarem endoutrinadas, domesticadas, o que é claramente mais importante. Obtemos pensadores livres e activos conscientes da sua importância, que não têm receio de se envolverem em acções directas -- por outras palavras, anarquistas.

Isto não significa que todos os activistas são anarquistas, pois não o são. A ala direita possui uma séria dose de activistas reacionários, mas eles são, na verdade, peões de uma estrutura de autoridade maior -- carneiros, que fazem aquilo que os seus pastores lhes dizem para fazer. Ou (o que mais frequentemente acontece), trata-se de pessoas bem intencionadas que são iludidas e manipuladas para que defendam uma causa que é contrária aos seus interesses reais.

Mas quando temos um conjunto de pessoas trabalhando em conjunto, a organizarem e a empenharem-se em lutar contra a autoridade ilegítima através acções directas, o mais provável é que essas pessoas simpatizem com o anarquismo em vez de outra doutrina, a qual apelará à obediência e à passividade.


A própria luta social promove a ideia anarquista, desde que ela seja feita anarcamente.


Infelizmente, hoje em dia, o que temos é um conjunto de ANARQUISTAS -- ideólogos -- que apenas se concentram no seu dogma ao invés de organizarem e fomentarem a solidariedade entre os trabalhadores. Isso influencia em muito o estado deplorável do movimento de hoje em dia ,o qual está dominado por elites e facções, gregos e troianos.


E uma vez que a Regra Cardinal da Ideologia se aplica -- que a ideologia não está nem nunca poderá estar errada -- o que isto significa é que os conflitos nunca acabam e todas as pessoas acabam por ficar divididas em pequenos enclaves.

A Metedologia é largamente mais aberta -- há aquilo que funciona e há aquilo que não, com pontos intermédios entre esses dois extremos. Se uma estratégia não funcionar, ajustamo-la até que funcione.


O Anarquismo sustenta que os operários e os camponeses estão prontos para o que der e vier em termos de revolução social, e em termos de inclinação e instinto -- as pessoas desejam ser livres; elas querem uma melhoria nas suas circunstâncias e padrões de vida. As pessoas não querem ser escravos -- os protagonistas do poder já gastam demasiado tempo a tentar convencer o povo que ele é, realmente, livre, quando de facto, não o é. Acreditamos que todo o indivíduo valoriza a sua liberdade, enquanto que o ANARQUISTA argumenta que a classe trabalhadora são muito racistas, sexistas, apáticos e homOfóbicos para entenderem a "mensagem" -- eles entendem as massas quase com o preconceito marxista.

De facto, quando as coisas não vão à maneira dos ANARQUISTAS, eles culpabilizam todos menos eles do sucedido, o que em parte explica a isolação e o elitismo da esquerda radical -- "vós, os trabalhadores, são demasiado ignorantes para entenderem as nossas ideias geniais". Com tal atitude podemos perceber porque cada vez mais trabalhadores ignoram a esquerda radical.

Ideologia e natureza humana

Um elemento comum a todos os ideólogos é a sua natureza pessimista da natureza humana -- eles observam-nos como basicamente maus, e com necessidades de melhorias (conseguidas através da "aprendizagem" da sua ideologia, que naturalmente oferecem). Ademais, os ideólogos consideram-se isentos desse princípio pessimista da natureza humana -- eles estão bem como estão, os outros é que precisam de modificações, pois ainda não estão "abençoados" com a sua ideologia formidável...


No entanto, este ponto de vista é incompatível com o Anarquismo, mas inteiramente compatível com ideologia autoritárias -- os autoritários vêem todos os seres humanos como maus e bárbaros, e com necessidades de educação, supervisão, e acima de tudo, controlo, os quais eles estão dispostos a fornecer.

O anarquista, defende que os seres humanos são bons, e sem necessidade de orientação, coerção e controlo -- de facto, sustentamos firmemente que os únicos males na sociedade advêem das tentativas de controlarmos e coagirmos os outros, e que os mecanismos de poder, privilégio e controlo transformam o mais santo dos ingénuos num manipulador compulsivo.


Por outras palavras, os anarquistas vêem as pessoas como boas, e os sistemas de controlo como prejudiciais, enquanto que os ideólogos argumentam o contrário -- que os seres humanos são maus e os sistemas de controlo utéis para modificar a sua natureza para boa, desde que ELES o controlem (se outros o controlarem, esse sistema já é nocivo -- é assim que eles aparentam ser anti-autoritários quando fora da cadeira do poder, mas esperem até eles terem um cheirinho dela..). É uma diferença importante que determina a natureza da organização que ascende destas bases.

A organização baseada numa perspectiva negativa da natureza humana irá focar-se no poder e no controlo, centralizando estes aspectos em tão poucas pessoas quanto possível -- as pessoas às quais podem ser confiadas com essa responsabilidade de deterem o poder ( o que significa os mais obedientes e endoutrinados), enquanto que a organização baseada numa vista positiva da natureza humana irá tender a erradicar o poder e a eliminar o controlo, descentralizando e redistribuindo este por tantas pessoas quanto seja possível.


A mais perniciosa ameaça do ideólogo é que eles se sentem isentos das suas próprias regras -- mais uma vez, derivado da noção de que eles viram "a luz" e o resto são: 1) idiotas; ou 2)malignos (por terem virado as costas à "Verdade"). Assim, nunca se poderá argumentar com eles, pois eles próprios são irracionais -- se te oposeres aos seus objectivos, qualquer que seja a razão, tu é que estás errado, não eles.

É por isso que um corolário natural dos ideólogos é o uso da força -- porque eles ao serem dogmáticos e irracionais, o último elemento em que se poderão apoiar legitimamente é a força, que necessita de centralização e hierarquia -- o Estado é a última metamorfose desta tese.

Em certo sentido, o ideólogo é uma autoritário encapsulado, o que explica o serem tão traiçoeiros. Eles assemelham-se aos anarquistas, pois rejeitam a autoridade que existe quando não fazem parte dela; todavia, eles opõem-se é realmente a não terem eles o poder, ao invés de rejeitar a própria autoridade. Quando adquirem um estatuto de autoridade, tornam-se tão despóticos como os que os precederam.


A sua Autoridade está na própria ideologia -- a Grande Ideia -- à qual podes resistir como puderes. Foi isto que causou com que os Galleanistas (anarquistas italianos seguidores de Luigi Galleani) se empenhassem em várias campanhas de bombas, inclusivé contra o pedestre comum -- para os Galleanistas, quem não percebesse a sua Ideia não era inocente.

A verdade é: não há verdade!

Isto poderá parecer um paradoxo, dado que vêm de uma Web page que promove algumas ideias políticas, mas não há problema -- os anarquistas defendem que a Verdade tende a pertencer ao grupo dos poderosos e influentes -- isto é, que os poderosos defendem que o seu ponto de vista é válido e favas para ti se pensas ou afirmas que não é.


Não há nada mais ideológico do que candidatos à Verdade Final, e os anarquistas não devem pertencer a esses grupos. O nosso ponto de vista, oposto, é de que a única verdade que pode prevalecer é a de não haver verdade, pois não existe uma verdade exterior para a apreendermos, apenas -- apenas há o que nos faz sentido e o que não nos faz sentido.

A realidade existe (embora alguns filósofos também o debatam) -- a realidade é objectiva, enquanto que a verdade é inteiramente subjectiva. Se pegares numa pedra e a largares, ela cairá. Isso é porque a gravidade é uma força objectiva -- é um aspecto do que é -- a realidade. A verdade deriva da realidade, não o contrário.

A subjectividade da verdade é algo com que as autoridades estão muito preocupadas, pois é um conceito revolucionário -- se a verdade é subjectiva, então a rede de cadeias da nossa sociedade colapsa -- a lei, a religião, o Estado -- todos implodirão se nos apercebermos de que o que alguns alegam ser a Verdade são, na realidade, apoiadas pela força. Onde o poder está envolvido, o que é considerado como Verdade acaba por ser, na realidade, mentiras forjadas misturadas com superstição.

Os anarquistas defendem que a Verdade é subjectiva, ou, aliás, deveriam defender, pois é a base da nossa rejeição por dogmas e manifestos. Nenhum anarquista deverá aclamar o manifesto final que se aplique a todos os seres humanos e suas interacções, apesar de haver alguns que o tentem.

A liberdade de pensamento é a única metedologia em que nos poderemos basear, na ausência de uma Verdade externa -- isto é, pensares e avaliares por ti próprio o que é e o que não é, em vez de decidires que alguém defina o mundo por ti. E o meio deste método é a razão, não a força.


Os autoritários apegam-se a um ideal objectivo -- a Verdade -- a qual só eles podem ver, é claro. E o teu papel neste processo é obedeceres à sua Verdade ou seres penalizado por não o fazeres. Assim, o "pregador-da-liberdade" capitalista coloca um cartaz de "Intrusos serão atingidos" na "sua" propriedade e dorme calmamente à noite e o cristão temente a Deus queima as bruxas na fogueira enquanto canta "amai o próximo" da Bíblia.

Os ideólogos estão sempre a atropelar os seus sublimes valores com as suas constantes atrocidades -- e os anarquistas não devem querer nada com eles. Reijatamo-los e às suas Verdades!!

Tudo serve?

Será que a rejeição anarquista da Verdade significa que o anarquismo é tudo serve? Sim e não -- aquilo que destrói a autoridade ilegítima é anarquista; aquilo que não o faz, não é. Esta é a base para a nossa metedologia, e para a nossa resistência para com os priveligiados e os poderosos.

Significa que apenas a autoridade legítima é aquela que é livremente aceitada, na completa ausência de coerção -- associações livres. Isto permite uma extraordinária variação de actividades humanas, e cria a aparência de "qualquer coisa dá" -- anarquia -- mas isto só poderá ser realizado através de organizações consistentes e dedicadas formada por membros da sociedade.


Desta maneira, rejeitamos estilos de vida, porque o que eles pretendem alcançar -- autonomia narcisítica -- é impossível na nossa sociedade feita de interligações, e não é anarca, pois não considera a luta de classes e a organização, em favor de egoísmos e abandono da solidariedade humana.

A base metedológica para a nossa rejeição é de que não liberta ninguém, incluindo o indivíduo que possui esses hábitos de vida, e assim não é de maneira nenhuma uma ameaça para com a autoridade ilegítima. A "Zona Autónoma Provisória" é um elefante cor-de-rosa, pois deixa a principal origem de opressão -- o Estado-- ileso, intacto e incontestado.

É o método errado, ainda que o desprezo pelas ideologias desse indivíduo esteja bem fundado. Os anarquistas sociais deverão deixá-los sozinhos com os seus hábitos, ao invés de discutirem com eles. Para o anarquista social, o objectivo é organizar-se eficazmente em vez de exercerem ditirambos com os indivíduos do modo de vida anárquico.

O Anarquismo é uma teoria racional e uma filosofia, que requer observação e pensamento, e principalmente organização e acção.

Anarquistas indutivos e anarquistas deductivos

Ainda que no tópico da razão e da racionalidade, há algo que distingue o Anarquista ideólogo do Anarquista metedológico -- nomeadamente a dedução contra a indução. Vamos ver.

A dedução é quando partimos de uma premissa. Por exemplo, se disser:
"Sou um Anarquista, logo tudo o que faço é anarquista"

Sou dedutivo na afirmação das minhas acções serem anarquistas. Se disseres algo que eu faça que não é anarquista terei que discordar de ti por essa razão -- direi "não, estás errado, porque eu sou Anarquista, e o anarquismo é o que eu faço". E já que discordas de mim, e eu sou um Anarquista, então deves ser um autoritário -- logo és meu inimigo.

Vêem o problema? Este género de ideologia dedutiva não está limitada aos ANARQUISTAS, pois é bastante comum a todas as ideologias autoritárias que por aí pululam, nas quais as pessoas não fazem o que afirmam.

Porém, com o anarquismo, este modo de pensar é positivamente mortífero -- opõe-se à liberdade de pensamento e bloqueia a tua mente.

O anarquismo indutivo, todavia, considera o que fazemos e porquê, e conclui que és um anarquista baseado no que tu fazes, não no que tu dizes. Nem todos os que combatem a autoridade ilegítima são anarquistas -- isso é claro. Assim, o anarquismo indutivo quer dizer é que as acções de alguém são o critério para ser anarquista, não as alegações de alguém.


Isto é uma distinção muito importante, pois permite-nos estar em guarda contra os autoritarismos latentes e os vanguardismos dentro do próprio movimento. Isso foi o que notou Bakunine quando confrontou Marx -- Marx e os seus defendiam que eram pelo socialismo, e pretendiam que todos abraçassem esse seu programa como a "melhor" maneira de chegar ao socialismo, mesmo que o seu programa provasse (como aconteceu) que minava e destruía o socialismo a que aspirava.

Os mesmos riscos existem com o Anarquismo. Onde o anarquismo dedutivo pode ser encabeçado por oportunistas autoritários dentro do movimento, (e dificilmente serão contestadas porque tais acções desencorajam os dissidentes e a discussão a favor da conformidade ideológica) -- o que significa que tais oportunistas não serão contestados nos seus próprios grupos!


O anarquismo inductivo ou metedológico, no entanto, não podem ser tão facilmente atraiçoados, pois ele envolve toda a discussão possível e diz que a cada um cabe dar a sua decisão sobre determinado assunto, ao invés de esperar por alguém que nos "ajude". Significa pensares por ti próprio ao invés de deixares outros pensarem por ti.

Os anarquistas dedutivos amam os manifestos e as plataformas base -- tratados e doutrinas que eles constroem e esperam que aprendas, memorizes e obedeças. Eles sustentam que se conseguissem converter suficientes indivíduos à SUA maneira de pensar então a anarquia seria possível. Eles sustentam que tu ainda não estás preparado.

Os anarquistas indutivos pensam que isso é ridículo - defendemos que nenhum tratado ou manifesto pode legitimamente abranger todos os sonhos humanos, esperanças, e aspirações. Depois, defendemos que o cidadão comum já está preparado para receber as ideias anarquistas, e aplicá-las à prática -- eles ganham esta nossa esperança apenas pela virtude de serem humanos.


Os humanos não gostam que lhes digam o que fazer ou que sejam arrumados a um canto. Se gostassem, os que estão no poder não gastariam tanto tempo, dinheiro e energia tentando fazendo-nos acreditar que somos livres quando, de facto, não os somos. O papel do anarquista nisto tudo é apenas servir de "despertador social" no início, e comunicar os métodos de organização que enfraqueçam e destruam a autoridade e deixar que o processo se desenvolva por si.

O ANARQUISTA, ao contrário, pretende um papel mais activo, mais vanguardista -- já que defendem que apenas a sua tribo pode ter a responsabilidade de serem os mais sérios e esclarecidos, de possuirem a Verdade que apenas eles podem ver; vêem-se a si próprios como os mestres que orientam tudo para melhor atrás do palco, já que as marionetes não podem ser confiadas ao ponto de desenvolverem a revolução.


Esta atitude é o porquê da esquerda radical tantas vezes caracteriza a classe trabalhadora como apática, reaccionária, racista, sexista e homofóbica -- mil males. Vêem-nos como seres menores que necessitam de liderança e instruções.

Como um anarquista, penso que tal atitude é insana - pessoas endoutrinadas não são pessoas livres, e é impossível criar uma sociedade livre (isto é, anarquista) usando métodos não livres.

Então e depois?

Depois, é que só importam duas coisas: 1) organizar solidariedade entre os trabalhadores; 2) fomentar a acção popular directa. Esse é o objectivo dos anarquistas, ou deveria ser. Não é nossa intenção ensinar aos outros como se comportarem ou o que pensarem - isso é assunto deles, não o nosso.


O ANARQUISTA sustenta que "ao menos se o resto do mundo fosse um ANARQUISTA (como eu) tudo estaria perfeito" - vêem-se a si próprios como o somatório total da pureza anarquista - mas isso é um sentimento vanguardista levado ao extremo, e é Marxista de raiz e de efeitos.

A metedologia do anarquismo é mais fundamental, pois é relativamente fácil de determinar se estás a sê-lo ou não , enquanto que palavras e doutrinas são ocas e vazias de significado - elas podem ser interpretadas quase como quisermos ao ponto de parecerem doces, acolhedoras e verdadeiras. Todos os inimigos da liberdade o fazem - os EUA bombardeiam pessoas e assassina líderes democraticamente eleitos em nome da "democracia" e da "liberdade" - uma ideia que apenas ganha forma se abraçares a ideologia da América, em vez da metedologia da democracia!!

De facto, se examinarmos o sistema governamental dos EUA metedologicamente veremos que nem de perto nem de longe se assemelha a "democracia" , "liberdade", "vontade popular" ou "representação" - mas todas estas palavras são usadas até à náusea pelas elites que estão no poder.

Lenine, enquanto tentava amealhar mais apoios para os Bolcheviques, fez de "todo o poder para os sovietes" o slogan do seu partido, sabendo que a autogestão popular era pretendida pelos trabalhadores. Os trabalhadores depositaram a sua confiança em Lenine e Trotsky para o fazer, e, para surpresa sua, quando os Bolcheviques chegaram ao poder, engrenaram uma diferente mudança e destruiram tantos sovietes quanto puderam - do "todo o poder para os sovietes" passou-se para "todo o poder para os Bolcheviques" (o que era o Estado, na altura). O Partido "Comunista" destruiu o comunismo, pois este ameaçava o seu poder base!

O trabalho do anarquista é somente mostrar os métodos e as maneiras pela qual a revolução libertária social pode ser feita. E esta estratégia é mais anarquista do que a outra, porque deixa a iniciativa onde ela deve estar: na rua, nas lojas, nas salas de aula - milhares de arenas de combate onde os indivíduos se juntam para banir a autoridade ilegítima.

Tradução: Tiago Carvalho.

 


C a n t o   L i b e r t á r i o